
Em fevereiro de 2026, o Ministério da Justiça publicou os números de letalidade policial do ano anterior. O retrato nacional não foi animador: 6.519 pessoas mortas por policiais em 2025, uma alta de 4,5% em relação a 2024. São Paulo bateu recorde atrás de recorde. A Baixada Santista virou sinônimo de operação letal. Rondônia saltou quase 500%.
No meio desse cenário, um dado passou quase despercebido: o Rio Grande do Sul registrou a segunda maior queda do país. Menos polícia matando, menos gente morrendo. E os nossos dados confirmam a tendência — com um nível de detalhe que as estatísticas nacionais não oferecem.
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O CENÁRIO NACIONAL
O Brasil matou, em média, 18 pessoas por dia em ações policiais ao longo de 2025. Foram 6.519 mortes no total, segundo o SINESP/MJSP — um aumento de 4,5% em relação às 6.243 registradas em 2024.
A tendência nacional é de crescimento quase ininterrupto desde 2014, quando o Anuário Brasileiro de Segurança Pública contabilizou 3.070 mortes. Em uma década, o número dobrou. São Paulo, que vinha em patamares mais baixos, viu sua letalidade policial disparar 61% entre 2023 e 2024. Rondônia teve alta de 488% em 2025. O Amapá lidera a taxa por 100 mil habitantes: 17,1.
Nesse contexto, dois estados se destacaram por ir na direção oposta. Tocantins teve a maior queda: -55%. O Rio Grande do Sul veio logo atrás: -43% segundo o SINESP, a segunda maior redução do país.
Contramão nacional
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Nós não temos dados de São Paulo, Rondônia ou outros estados no nosso banco de dados. Mas temos os do RS — e com muito mais detalhe do que qualquer levantamento nacional oferece. Cada ocorrência individual, com município, bairro, horário, idade, sexo e cor da vítima. É o que permite contar essa história com precisão.
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O QUE OS DADOS DO RS MOSTRAM
Os registros da SSP/RS mostram uma queda consistente e sustentada ao longo de 2025. Não foi concentrada em um mês ou em um evento específico — praticamente todos os meses ficaram abaixo do patamar de 2024.
O total anual caiu de 122 em 2024 para 62 em 2025 — uma redução de 49%.
Olhando a série desde 2022, o padrão fica mais claro. O RS teve um pico em 2023-2024 e depois recuou pra um patamar menor que o de três anos atrás.
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PORTO ALEGRE: DE 31 PARA 2
O dado mais impressionante da série está na capital. Porto Alegre registrou 31 mortes por intervenção policial em 2024 — e apenas 2 em 2025. Uma queda de 94%.
No acumulado 2022-2025, a capital concentra quase um quarto de todas as mortes por intervenção policial do estado. Foram 91 mortes em quatro anos.
A queda de POA em 2025 não foi compensada por aumento em outros grandes municípios da Região Metropolitana. Novo Hamburgo teve 2 mortes, Viamão teve 4. Os números são consistentemente baixos.
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QUEM MORRE EM AÇÃO POLICIAL NO RS
O perfil das vítimas de letalidade policial no RS segue um padrão que se repete em todo o Brasil — mas os dados individuais da SSP/RS permitem quantificar com precisão.
Sexo: 95% das vítimas são homens. Das 369 mortes entre 2022 e 2025, 352 foram de homens e 16 de mulheres.
Idade: a faixa de 18 a 34 anos concentra 61% das mortes. Dezenove vítimas eram menores de 18 anos.
Cor/raça: 60% das vítimas com informação registrada são brancas, 9% pardas e 8% pretas. Mas 22% dos registros não têm dado de raça — o que torna essa distribuição pouco confiável pra conclusões absolutas. Em estados com populações mais diversas, a proporção de vítimas negras tende a ser muito maior.
O perfil típico
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QUANDO ACONTECE
A maior parte das mortes por intervenção policial no RS acontece no período noturno. 43% dos casos foram registrados entre 18h e 23h. Somando a madrugada (0h-5h), o período escuro concentra 62% das ocorrências.
A distribuição por dia da semana é mais uniforme — sem diferenças grandes o suficiente pra indicar um padrão claro.
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OS MUNICÍPIOS COM MAIS MORTES
No acumulado de quatro anos, Porto Alegre lidera com distância — 91 mortes entre 2022 e 2025. Caxias do Sul vem em segundo com 25, seguida por Alvorada (18) e Novo Hamburgo (14).
| Município | Total 2022-2025 ▼ | 2025 | 2024 |
|---|---|---|---|
| Porto Alegre | 91 | 2 | 31 |
| Caxias do Sul | 25 | 7 | 10 |
| Alvorada | 18 | 3 | 6 |
| Rio Grande | 14 | 3 | 1 |
| Novo Hamburgo | 14 | 2 | 5 |
| Viamão | 12 | 4 | 3 |
| Santa Maria | 9 | 1 | 3 |
| Carazinho | 8 | 1 | 3 |
| Pelotas | 7 | 1 | 0 |
| Santa Rosa | 6 | 0 | 4 |
O dado que chama atenção em 2025 é Caxias do Sul. Com 7 mortes, a cidade da Serra Gaúcha liderou o estado pela primeira vez — superando Porto Alegre, que historicamente concentra a maioria dos casos. Viamão (4) e Alvorada (3) completam os três primeiros.
Inversão geográfica
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O QUE MUDOU?
Os dados mostram que a queda foi real, distribuída ao longo do ano e concentrada nos municípios que historicamente tinham os maiores volumes. Mas explicar por que a letalidade caiu exige cautela.
O governo estadual atribuiu o resultado ao investimento de R$ 2 bilhões em segurança pública desde 2019, à adoção de câmeras corporais pela Brigada Militar e à reposição do efetivo policial. São hipóteses plausíveis, mas os dados de ocorrência, sozinhos, não permitem isolar qual fator foi determinante.
O que os dados permitem dizer com segurança:
- A queda não foi concentrada em um mês ou operação específica — ela se manteve ao longo de todos os 12 meses de 2025.
- Porto Alegre teve uma queda desproporcional (94%), o que sugere uma mudança operacional na capital, não apenas uma tendência estadual.
- O perfil das vítimas não mudou significativamente entre 2024 e 2025 — o que mudou foi o volume.
- A série histórica mostra que 2023 e 2024 foram anos atípicos pra cima, e 2025 retornou a um patamar próximo ao de 2022.
O contraste com o cenário nacional é marcante. Enquanto estados como São Paulo viram a letalidade policial disparar a níveis recordes, o RS conseguiu reduzir pela metade. Seja qual for a combinação de fatores, o resultado está nos dados.
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METODOLOGIA E FONTES
Metodologia e fontes
Dados do RS: registros individuais da Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS), publicados sob a Lei Estadual 15.610/2021. A base inclui ocorrências com tipo de enquadramento "MORTE DECORRENTE DE OPOSIÇÃO A INTERVENÇÃO POLICIAL" (2024-2025) e "HOMICÍDIO DECORRENTE DE OPOSIÇÃO A INTERVENÇÃO POLICIAL" (2022-2023). A mudança de nomenclatura reflete uma alteração administrativa, não metodológica — ambos os tipos foram somados na análise.
Dados nacionais: SINESP/Ministério da Justiça e Segurança Pública (publicação de 03/02/2026) para totais de 2025. Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 19ª edição (FBSP, julho/2025) para dados de 2024 e série histórica.
Limitações: (1) os dados da SSP/RS registram 122 mortes em 2024, enquanto o SINESP registra 141 — a diferença se deve a critérios de inclusão diferentes (o SINESP pode incluir mortes por policiais fora de serviço). Ambos confirmam a tendência de queda. (2) 22% dos registros não têm informação de raça/cor, o que limita a análise racial. (3) Dados de 2026 cobrem apenas janeiro (15 mortes). (4) Não temos dados individuais de outros estados — as comparações nacionais usam fontes secundárias.
Atualização: esta análise usa dados até 31 de dezembro de 2025.